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out 6, 2011

O debate sobre a FECAJE e Movimento Cultural no Vale do Jequitinhonha

PARTE 1.

O QUE É HOJE O MOVIMENTO CULTURAL NO VALE DO JEQUITINHONHA.

Penso que não é produtivo situar qualquer análise/contribuição sobre o movimento cultural do vale do Jequitinhonha a partir de uma avaliação da atuação da atual diretoria da FECAJE. Não que isso não seja necessário ou válido, mas fazê-lo neste momento é aumentar a poeira da confusão. Urgente, é pensar o que é o chamado movimento cultural do Vale do Jequitinhonha.

O coletivo da APACA participa do FESTIVALE desde o ano de 2006, em Araçuaí. Portanto são 06 anos de vivência do maior encontro do fazer cultural no Vale. Não o único, mas o principal, seja pela capacidade de agregação dos produtores, agentes e entidades culturais, seja pelo espelho que se constitui o evento, o reflexo do que existe de mais organizado e atuante na região do Jequitinhonha.

De um modo geral, esquemático, para efeito de análise, poder-se-ia agrupar o movimento cultural do Vale do Jequitinhonha em duas frentes: uma, a dos que já não moram no vale, representada principalmente pela velha guarda residente em Belo Horizonte, que tem No instituto VALEMAIS a sua entidade mais representativa. Outros agentes e produtores culturais, da velha guarda ou não, residentes em BH ou outras cidades do estado ou país também compõe esta frente, mas eles são dispersos, entrincheiram-se nos bares, palco (como artistas consagrados??), na execução de oficinas ou mesmo em ações voluntariosas em comissões  da organização do evento. Vem num FESTIVALE, não vem em outro. Raramente freqüentam as atividades culturais das cidades quando não são remunerados. Mas eles não são menos nem mais, valorativamente, apenas diferenciam-se pelo lugar de onde debatem e formulam soluções para o movimento cultural do Vale. Outra frente é composta pelos agentes e produtores que residem, trabalham e sobrevivem nas cidades do Vale do Jequitinhonha. A maioria está vinculada a entidades: grupos de teatro, corais, associações de artesãos, grupos de cultura popular. Também existem os dispersos, mas proporcionalmente em número menor que os dispersos que não residem no Vale. Entre eles existem até alguns que ocupam cargos públicos nas administrações municipais, principalmente nas secretarias de educação e cultura.

Destas duas frentes emanam discursos diferentes. Da primeira, ouvimos sempre o reverberar da sabedoria experimentada por quem alcançou o progresso da civilização, que está localizada na moderna vida urbana, no contato com as mais (pós) modernas experiências artísticas culturais de organização e empreendimento. Um eco do discurso colonizador a orientar uma prática de fora pra dentro, sem o diálogo com o que está atrasado em termos de organização, resultados, dividendos. Muitas vezes um macaquear das tradições do povo meu lá da roça como cartão de visita para festas e afins.  Da segunda frente um discurso insonso, desencorajado, romântico, um apego a uma suposta tradição genuína do povo que sofre mas é criativo, que não precisa abrir a porta para o outro porque via de regra o outro é sempre um explorador, cheio de segundas intenções e… não é do vale. Um discurso de purismo quase religioso a sustentar uma prática desorganizada, indisciplinada, descomprometida com um debate político e estético. Porque subentendido nesse discurso, politicamente, somos coitados, vítimas da ação predadora dos políticos malvados… que dó; esteticamente, chitão, cantigas de roda e folguedos, um excesso anacrônico do mesmo.

Contudo, sabemos que no vai e vem diário existe uma riqueza de posições e interesses que ultrapassa o esquema apontado acima. Mas não se pode negar que tem sido essas duas frentes que tem animado o debate sobre o movimento cultural nos últimos anos no Vale do Jequitinhonha.

A APACA, através de sua diretoria, ao expor esta análise sobre o movimento cultural, propõe um convite para a superação desse esquema defasado, redutor. Propõe, como ponto de partida a antropofagia – no sentido enunciado pelos modernistas brasileiros do início do século XX. Precisamos ser antropofágicos : comer o outro, dar-se a comer, sem purismos e ou falseamento das contradições. Romper com o romantismo e enterrar o colonialismo. Fazer girar a roda dentada da história.

Mas quem será capaz deste ato, sem heroísmos?

Não será um ou dois agentes e ou produtores culturais iluminados que guiarão o movimento cultural para um caminho de sucesso. Abaixo essa verborragia. Mais do que nunca, serão as organizações culturais (entidades), através de seus representantes, a partir de sua experiência local, com debate e organização, a força capaz de formular projetos que se sustentem regionalmente.

PARTE 2.

A FECAJE, ENTIDADE OU FEDERAÇÃO?

Comecemos por entender a questão a partir da realidade objetiva. Atualmente no Vale, como em outras regiões do país, são vários grupos e entidades que acessam recursos públicos para executarem suas atividades culturais e artísticas. Apesar das dificuldades sabidas, suponho que em nenhum outro momento da história do movimento cultural no Vale as entidades tiveram melhores condições de existência e prática cultural. Portanto, vê-se nos últimos anos um fortalecimento relativo do movimento através das suas entidades. Como seria possível uma FECAJE coordenando políticas de fomento, formação e divulgação cultural sem ser um organismo de natureza federada, um órgão que represente entidades?

Mas isso é uma decisão política.

Sendo uma ENTIDADE,  a FECAJE assumiria cada vez mais a feição de produtora, de empresa que ofereceria pacotes de reciclagem cultural.

Sendo uma FEDERAÇÃO, a FECAJE assumiria um papel de fórum de elaboração de políticas culturais integradas a serem executadas e parceria com as entidades federadas.

Mas, perguntariam: a FECAJE já não é uma federação. Respondo: talvez. No estatuto, sim. Na prática o caso tem sido diferente: a entidade é hoje uma coisa que não tem forma definida. Serve, desde que acompanhamos o FESTIVALE, como biombo de interesses político partidários, que usam a fragilidade da atual diretoria como instrumento para executar a política de pão e circo.

Vejamos dois exemplos recentes: em Padre Paraíso, apesar de ter sido o movimento cultural da cidade articulado pela APACA o principal responsável pela vinda do FESTIVALE para a cidade, a sua execução se deu sob a tutela dos interesses políticos partidários da atual administração. Em Jequitinhonha a situação foi mais escandalosa: sem recursos, sem articulação política junto ao movimento, a atual diretoria se rendeu aos interesses da administração municipal: realizou-se um evento sem o mínimo de estrutura, apenas para compor as festividades de um projeto megalomaníaco de comemoração de um suposto bicentenário. Bicentenário de quê?

PARTE 3.

FAZER O QUÊ?

Debater.

Articular.

As entidades e produtores culturais que propõe uma ação integrada regionalmente, que politicamente se posicionam com fazedor de cultura popular, devem  promover encontros. Articular com quem compreende que no processo cultural o mais importante é o povo, não o produto. Pois sem moradia, terra, renda, educação de qualidade, o povo é frágil instrumento nas mãos dos colonizadores, coronéis de gravatas, instituições pseudo “culturais”.

A eleição da nova diretoria da FECAJE pode e deve potencializar esse debate, as articulações – via internet, telefone, fumaça, tambores, cartas, recados e principalmente, encontros presenciais.

A APACA se põe à disposição.

Menos pão e circo, mais dignidade: a arte é um instrumento de humanização do homem.

Armando Ribeiro - Presidente da APACA